Obras

Autora dos livros:

* Anunnakis, os Deuses Astronautas - Editora Madras
* A Conspiração Anunnaki - Editora De Geneve
* Ouro de Ofir - Alquimia do Antigo Egito - Editora De Geneve
* Efeito Exillis - O Segredo das Sociedades Secretas
* Mito - Livro de Poesias
* Operação Rhesus - Em busca do Elo Perdido ( Recém lançado. Maio 17)
* 2162 - O Código Secreto de Hitler

À VENDA NAS LIVRARIAS SARAIVA, AMAZON.

domingo, 20 de agosto de 2017

Livro 2162 O CÓDIGO SECRETO DE HITLER. DISPONÍVEL AMAZON E LIVRARIAS SARAIVA

      Um presente para os meus seguidores do blog. Esse livro é diferente. Trata-se do meu primeiro novel Sci-Fi. Em primeira mão, trechos do meu novo livro. Beijo grande, queridos!
                        


                                01
                                              1945, Luneburg, Alemanha

O abismo havia se estreitado para Himmler.
A dor abismal de saber que seria fuzilado por soldados do exército que ele comandou o fazia meditar amargamente.
Himmler levantou-se do catre e foi até a pequena janela gradeada no canto da cela, erguendo-se nas pontas dos pés para tentar ver o que acontecia no pátio.
Lá fora, os tiros soavam como um refém póstumo quando o pelotão fuzilava mais um prisioneiro. Ao contrário de lhe causar terror, sentia um imenso desejo de sair dali, nem que fosse através da morte. Na parede da cela, riscado com a própria colher, era possível ler:
23 de maio de 1945. Para sempre Heinrich Himmler Reichsführer”.
O homem vestido com roupas de presidiário em nada se parecia com o imponente oficial nazista vestido com a farda encorpada e preta coberta de insígnias e medalhas de Reichsführer. Outrora tinha sido o oficial chefe da Schutzstaffel, o segundo homem mais importante do Reich.
Por ironia do destino, agora Himmler estava prestes a perder a batalha contra a própria morte provocada pelo pelotão de fuzilamento que ele mesmo treinou durante anos. Um muxoxo de desprezo o fez sorrir com o canto da boca, algo raro nele. Todavia, algo o deixava preocupado: não ter conseguido enviar as filhas gêmeas para o futuro através da máquina nazista de viagem no tempo, a Die Glocke.
De repente, ouviu mexerem no ferrolho da porta que logo foi aberta pela sentinela. Um capelão a passos ligeiros adentrou a cela para aplicar a Santa Unção. Ele trazia um vidro na mão e uma faixa litúrgica pendurada no pescoço, além de um pano cobrindo parte da cabeça. A sentinela retirou-se, fechando a porta atrás de si com pesado barulho de chaves.
Os dedos de Himmler contorceram-se, enroscando-se uns nos outros.
— Me-Mein Reichsführer, minha visita é para realizar os últimos sacramentos ao senhor. – O capelão tropeçou nas palavras como um gago nervoso.
— Eu lá preciso de Extrema Unção?
— Mas Rer... Todos os prisioneiros, antes da morte, têm o direito de receber visitas religiosas...
— SAIA DAQUI! – Interpelou o Reichsführer levantando o dedo para o capelão.
Me-Mein Reichsführer, o se-senhor conhece o Laternenträger?
— Como sabe o codinome da Die Glocke, seu filho da puta? – O queixo de Himmler se projetou para frente.
O capelão retirou o pano que lhe cobria o rosto. A boca de Himmler ficou entreaberta por alguns segundos, enquanto os seus olhos se agigantaram para o capelão, que esboçou um sorriso no canto dos lábios.
— Everald Hans? – Himmler pronunciou o nome dele num ligeiro tremor na voz, analisando a cara alarmada e congestionada do homem.
— Como ousas vir aqui? – O Reichsführer pareceu martelar com ódio cada sílaba dessa frase.
O gogó de Hans subiu e desceu.
— Vim lhe fazer uma proposta, Rer!
— Vai me tirar daqui?
Hans fez um sinal de negação.
— Infelizmente não, Reichsführer.
— Então, que diabos...?
— Eu vim ajudá-lo a abreviar a sua vida. – Disse o falso capelão, engolfando o ar. — Ou prefere morrer nas mãos dos soldados que o senhor mesmo treinou?
Himmler olhou para o vazio, antes de voltar a olhar para ele.
— Pois é... Até agora eu não entendi como foi que a Alemanha perdeu a Guerra. Desconfio que algum espião soviético tenha decifrado o código da nossa máquina de criptografia Enigma. – Disse Himmler em tom mais baixo e reflexivo.
—Não existe um só homem capaz de decifrar a Enigma, Rer! – Disse Hans.
— Se essa máquina é indecifrável, então algum dos nossos deu com a língua nos dentes.
O Reichsfüher sentiu uma vermelhidão de cólera afluindo no seu rosto.
— O fato é que vazaram informações a Stalin e também a Churchill. – Disse Himmler. – E Hitler ainda acha que eu fui o traidor. O que ganhou um patriota como eu? Só desonra ao ser acusado de traição! Recebi um interrogatório regado à tortura. Foi graças aos meus homens que a Wehrmacht saiu vitoriosa na invasão à União Soviética em 1943. E agora que perdemos a Guerra, algo que eu jamais pensei que pudesse acontecer, sou acusado de traidor. Eu descobri o plano de sabotagem britânica da frota de U-boats alemã! Eu coloquei o ministro da marinha a par dos planos dos aliados! Tudo isso eu fiz pelo bem do Reich! E o que eu ganhei?
A voz de Himmler trepidou na mágoa.
— Eu fiz tudo que estava ao meu alcance. O meu fim não é um tratamento digno de um estadista que lutou tanto pela Schutzstaffel. Negociei com o inimigo! Fui conversar com o Conde Folke Bernadotte da Suécia, em Lübeck, perto da fronteira dinamarquesa, arriscando minha vida e minha carreira. Usei todas as armas para vencer essa Guerra. Todas! Inclusive as negociações com tropas inimigas. E o que foi que eu ganhei? O desprezo de todos vocês, seus filhos da puta! Cheguei até a me oferecer ao inimigo como gestor de Berlin caso a guerra acabasse com vitória deles. Eu tinha a esperança de que os americanos e britânicos lutassem contra seus aliados russos em conjunto com o restante da Wehrmacht. Quando o Führer descobriu, me declarou traidor e me destituiu de todos os títulos e cargos. E me mandou para essa cela fétida. Himmler perscrutou os olhos frios rosto de Hans.
                          

                               Amsterdã, 3 de agosto de 1944

Quando a viajante do tempo adentrou a porta, a sua inquietude foi rompida pelo coral de Heil.
Era como se melindrosas vozes trouxessem consigo o resto de alma que ela havia deixado no ano de 2162. 
Zohar Van Dann inspirou e fechou os olhos por alguns segundos, quando ouviu os interlúdios pastorais de Bayreuth Wagner. Nada seria capaz de registrar tão bem aquele momento do que a música mais ouvida da época.
Sua mente oscilou e ela teve que se ancorar no portal. Quando uma rajada de ar fez as suas madeixas ruivas rodopiarem pelo rosto ela ouviu o murmúrio do vento. Foi como se revelasse para ela todos os dissabores daquele tempo. Então, com os olhos inundados de lágrimas, ela fez uma prece para os que perderam a vida no Holocausto. Era uma noite fria numa metrópole à beira do caos de guerra. Zohar ficou cor de rosa quando viu o que estava à sua frente. “Oh, céus, não era esse o lugar que onde eu deveria chegar”, pensou ela.
Trêmula, ela girou o indexador de tempo para efetuar a leitura do Índex, que mostrou no visor o dia 3 de agosto de mil novecentos e quarenta e quatro, cidade de Amsterdã. “Estou há mais de três meses após o programado”, pensou ela, prestes a iniciar a maior choradeira. Com a oscilação de suas cordas vocais, ela apeou o indexador flutuante e ajustou a voz no sensor na tentativa de se conectar com o computador de bordo acoplado no satélite.
— Câmbio! Alguém a postos?
Houve um silêncio antes de alguém responder.
— Câmbio!
Seus olhos fecharam e ela sentiu certo alívio.
— Estou em Amsterdã, não em Nuremberg! Como pode isso? O que houve pelo amor de Deus?
— Confirme o índex. Qual data mostra o seu rastreador?
— 3 de agosto de 1944. Confere?
— Hummm... De fato, houve um salto errado. – Respondeu a torre de comando.
Por uma fração de segundos, Zohar ficou sem ar, olhando desnorteada para o índex.
— O que aconteceu! E agora? – O coração dela bateu muito depressa.
— No índex consta que Goethe se encontra em Nuremberg, porém, um mês antes dessa data.
— Goethe está em Nuremberg e um mês atrás?
— Exato!
— Maldito Goethe! Ele não foi me encontrar na Linha Meridian Time, conforme o combinado.
— Deve ter acontecido alguma coisa para que vocês se desencontrassem.
— Ele fez de propósito! – Esbravejou ela, enraivecida.
— Houve um erro no script, Zohar. Não sabemos ao certo o que houve. Pode até ter havido uma invasão por hacker. Nós vamos apurar isso! Porém, Goethe não teve nada com isso. – Houve uma breve pausa — Humm... precisamos mudar os seus planos.
— Diga para Goethe vir me buscar aqui!
— Negativo! – Respondeu Openheimmer. – Não será possível Goethe transpor o tempo para vocês se encontrarem.
Zohar engoliu em seco.
— Por que não?
— Porque você está em quarentena. Esse tempo precisa ser respeitado. Vocês não podem ser transportados nas primeiras quarenta horas.
Um jato quente tomou conta do rosto de Zohar.
— Oh, céus! Amsterdã está sendo destruída pela guerra. E você ainda me diz que estou em quarentena? 

                                        O encontro com Himmler

               Mesmo se passando duzentos e dezenove anos de história, Zohar reconheceria o rosto severo com aparência desditosa de Heinrich Himmler.
O seu olhar vivaz por detrás de seu pince-nez e o bigodinho estreito abaixo do nariz caucasiano eram inconfundíveis.
Quando ela adentrou a sala, Himmler a encarou por cima de um cálice levantado à espera de um brinde com os demais. Imediatamente, o rosto do coronel endureceu. Risos e murmúrios foram abruptamente interrompidos quando ela se moveu em direção à roda de estadistas.
O tempo pareceu parar naquele momento. Himmler se transfigurou. Parecia que o seu sangue estava concentrado em sua cabeça de tão rubra que ficou a sua face. Imediatamente, ele ordenou que interrompesse os Interlúdios pastorais da Ópera de Parsival. O súbito mal-estar que ela sentiu ao se tornar o centro das atenções daquele momento inóspito deve ter contribuído ainda mais em sua palidez, fazendo seus lábios tremerem e as palmas de suas mãos umedecerem.
“Oh, céus! Estou frente ao líder da SS responsável pelos campos de concentrações que mais mataram civis na história", pensou ela, enquanto, passo a passo, ela se aproximava da roda de estadistas.
— Ora, ora... – Disse Himmler à meia voz, aproximando-se dela, enquanto levava um charuto à boca sugando-o com sofreguidão. Houve um silêncio incômodo na sala. Não demorou muito para que ele começasse a demonstrar a sua descortesia.
— Identifique-se! Quem é a senhorita? O que deseja aqui? – Himmler apontou o dedo longo e magro para a sua cara.
Ela mal havia chegado e já experimentava os traços de uma amargura feroz do coronel. 

                                                  O primeiro ato

A noite estava úmida de ventania. Zohar ficou com as pernas bamboleantes de susto quando ela entrou em seu quarto e sentiu no ar o perfume da lavanda de Meneguen.
Foi um gemido forte, que a fez escorar na parede gelada, com o coração palpitante quando ela acendeu a luz a gás. Ela mal podia acreditar, mas Meneguen estava dentro de seu quarto, parado ao lado da porta. De imediato, um tremor percorreu o seu corpo e ela recuou um passo, fitando Meneguen com os olhos assustadoramente saltados. O olhar dele era sombrio, como um animal selvagem prestes a abocanhar a presa.
— O QUE FAZ AQUI? – Sua voz saiu num sobressalto.
Ela tentou recuar mais e sair do quarto, mas ele a puxou com força, comprimindo-a contra o tórax. A respiração dela entalou na garganta e ela o olhou com cara feia.
— Por favor, saia daqui! – Ela o empurrou.
Não demorou muito para que ele não sustentasse mais o olhar cor de avelã sobre o seu decote.
— Desculpe, eu pensei que você me quisesse... – Murmurou ele sem graça.
Meneguen murmurou desculpas com jeito sem graça, começando a abotoar os botões da camisa impecavelmente branca que estava semiaberta. Zohar reparou que os seus cabelos estavam molhados por um banho. Além do mais, o corte de cabelo dele era do jeito que ela gostava. Ela ficou de boca aberta só em olhá-lo. Por um momento ela ficou aturdida, desviando o seu olhar para a proeminência do membro que estava visível pela calça branca e justa. O cheiro de lavanda impregnou a sua narina e pela primeira vez, ela admitiu que o cheiro do perfume que ele usava mexia com ela. Calada, ela mordiscou os lábios, sentindo o fogo percorrer a sua pelve e as suas entranhas umedeceram.
— Espere! – A voz saiu sem que ela percebesse. Ela sentiu que as suas bochechas ficaram quentes.
Ele ergueu as sobrancelhas e ela percebeu um sorriso provocativo nos seus lábios. Zohar engoliu em seco, tentando controlar o nervosismo. Estava desnorteada demais para dizer alguma coisa. Ele estendeu a mão. Ela o tocou e uma corrente deliciosa percorreu o seu corpo. Ele a puxou de encontro ao seu corpo e passou o seu polegar em seu lábio inferior. A sua respiração ficou audível demais. Foi quando ela abandonou a sua resistência fingida e correspondeu ao beijo que ele deu.
Meneguen a carregou nos braços para o quarto contíguo e a colocou na cama. Ele retirou a camisa e sorriu, deixando à mostra os seus dentes perfeitos. A cabeça de Zohar deu voltas. Ela não tirou os olhos dele quando ele desafivelou a cinta e vagarosamente desabotoou os botões da calça, deixando-a deslizar pelas suas pernas firmes e cobertas de pelos. ..

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— Esse homem é um viajante do tempo. – Disse ela.
— VIAJANTE DO QUÊ? – O queixo de Meneguen caiu.
— Viajante do tempo... – Balbuciou Zohar, compreendendo o quão inacreditável soava o que ela acabara de dizer.
Meneguen riu nervosamente.
— Você não espera que eu acredite nessa história absurda, não é?
— O sangue do corpo desse homem foi substituído por um tipo de sangue artificial feito de nanocápsulas, conhecido no futuro por nanorrobô.
Meneguen balançou a cabeça e a olhou com jeito impaciente.
— Pare de falar bobagens!
— Posso continuar? – Ela o encarou


                                  Zohar envelheceu 100 anos 

Sentindo que esse era o fim, Zohar apertou os lábios como se segurasse a sua própria vida neles. “Estou perdida agora. Esse homem me abandonou à própria sorte”, seu coração palpitou descompassado.

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Meneguen pisou firme no acelerador e fez o carro chegar rápido à cidade, fazendo o motor silvar agudo, deixando para trás redemoinhos de poeira. Até que o veículo que os levava até o alquimista virou à direita, no fim da rua.
A noite estava mais fria por causa da ventania e as estrelas espocavam na escuridão do céu de lua minguante. Quando Hans e Meneguen chegaram ao porão do casarão da família Authneizar, uma luz bruxuleante escapava pelas frestas da janela. Eles bateram à porta com firmeza.
Um homem sondou pela fresta da porta. Impaciente, Meneguen a chutou até que ela ficasse escancarada. Um homem magro de roupas amarrotadas se esquivou.
— Senhor, eu não fiz nada! – Ele levantou os braços em rendição, ofegante como um bode velho.
Era uma espelunca encardida, com divisórias bambas servindo de paredes. Tinha uma mesa de madeira quebrada com uma cadeira giratória logo na entrada. Meneguen e Hans entraram e ambos foram logo pendurando os chapéus no cabide cambaleante que ficava frente à porta. O lugar era iluminado por lâmpadas a óleo penduradas em vários lugares do porão.      

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 — O desgraçado do Goethe está morto. – A voz de Zohar soou em um tom rouco e inconsistente, como se não estivesse acreditando nisso.
Quando eles entraram havia muitos curiosos ao redor do cadáver.
— Saiam todos daqui! – Meneguen ordenou e todos trataram de sair em silêncio.
Passo a passo, Zohar se aproximou da mesa onde estava o corpo. O cadáver de Goethe estava esticado em cima de uma maca com uma pança enorme, bem no centro da sala. Ela capengou até o cadáver e suas mãos mexeram desajeitadas no corpo gelado do homem. “Meu Deus, ele está morto mesmo”. Seus olhos estavam vidrados no cadáver. “Goethe morreu esta noite, bem no ano de 1944. Ele morreu antes de ter nascido em nosso tempo. Como pode ser possível isso?”, pensou ela, intrigada.
Ela passou alguns segundos ali, como se velasse o morto em um último cerimonial. Lá fora caía uma tempestade, com trovoadas e raios. Um dos médicos apressou-se em trazer uma lâmpada a gás e pôs sobre a mesa lateral, afastando-se em silêncio. Conversas e risadas vinham da sala ao lado. Meneguen manteve-se em silêncio, com os olhos detidos na moça.
Era um momento incerto para ela, talvez, definitivo.  
                                        
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Meneguen deu uma risada esculachada de satisfação antes de responder.
— Quero ir ao futuro com o Führer e Zohar!
— Ficou maluco?
— Quero que convença toda a liderança da Schutzstaffel para me conceder o alvará para que eu seja preparado geneticamente para viajar com a comitiva para o futuro.
— Você só pode ter enlouquecido! – Disse Himmler.
— É uma exigência, Reichsführer!
— Desde quando você me faz exigências?
— Desde o instante em que eu tenho em mãos a prova que você traiu a Schutzstaffel.
— Que provas? Uma réplica da Lança? – Debochou Himmler.
Reichsführer, não se faça de desentendido. Você sabe muito bem que eu acabo com você.
Houve um silêncio impertinente, até que Himmler disse.

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Interface neural
— E se destruírem a minha interface neural? – Zohar estava com medo.
O major ficou reticente pensativo.
— Onde ela está guardada?
— No mesmo lugar em que fiz o desenlace: no Laboratory Universal Medical Sciences.
— Quer dizer que você só poderá retornar para 2162 através desse laboratório? – Perguntou o major.
Zohar fez que sim com a cabeça.
— E se ela destruir?
— Será destruído o meu cérebro, a minha capacidade de pensar, o comando do meu corpo. Eu me degradaria com rapidez.
Ela sondou a fisionomia preocupada do major.
— E pensar que Mia tem o controle da minha interface... É o mesmo que ela esteja cuidando do meu corpo em coma. Eu estou totalmente indefesa. Além disso, ela tem a mão no gatilho do eixo terrestre. É muito poder nas mãos de uma mulher sem escrúpulos!
— Então, vou dar ordem para os xpotazes invadirem o Laboratório antes que ela dê cabo em sua interface.
— Esqueceu que Mia nos ameaçou? – Ela o olhou de esguelha. — Ela pode provocar terremoto em qualquer lugar que ela queira.
O major parecia matutar.
— Será que não vale a pena tentar invadir o laboratório?
— E colocar em risco a humanidade? Não! Acho uma péssima ideia!
— Então, o que vamos fazer? – Perguntou-lhe o major.
— Troquei a senha e passei um antivírus na interface. Para ela destruir a interface, ela precisará descobrir a nova senha. E não é tão fácil assim... Vai exigir certo tempo.

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 Foi pensando dessa forma que a ciência do meu tempo concedeu a permissão para que eu estivesse aqui hoje com o objetivo de ajudá-los. Essa licença está de acordo com a Jurisdição 964 – Lei do auxílio retroativo do ano de 2162, na qual a ciência tem o dever de mandar um enviado para o passado com uma determinada função. Por isso, a partir de agora, nós lidaremos diretamente com uma tecnologia correspondente ao ano de 2162. A nossa primeira tarefa é construir um dispositivo provisório de transporte temporal.
Parecia que ninguém piscava de tão atento, enquanto Zohar caminhava pelo laboratório, tentando interagir ao máximo com os cientistas.
— De que material poderemos construir esse dispositivo? – Perguntou Gourloise.
Zohar perscrutou os olhos miúdos escondidos pelos óculos de lentes grossas do cientista.
— Bem... A base interna do transportador será de nitrogênio líquido.
Eles se entreolharam.
— Muito gelado, não?
— Um corpo só pode ser transportado pelo tempo se estiver em baixa temperatura corporal. Por isso, o nitrogênio será usado para manter os corpos congelados no momento crítico de transferência.
— Será necessário inspecionar o bunker com uma antena de teleblackhole para encontrar um buraco de minhoca.
— O que vem a ser um Buraco de Minhoca? – Herman riu.
Buracos de Minhocas são passagens invisíveis, reconhecidas pela Teoria da Relatividade como sendo atalhos de espaço-tempo semelhantes a tubos contendo duas extremidades. O viajante precisará passar de uma boca para a outra do Buraco de Minhoca, atravessando a garganta do Buraco, que funcionará como um Túnel do Tempo. Os Buracos de Minhoca, apesar de invisíveis, existem em vários lugares dentro de uma mesma área. Eles podem ser detectados nos lugares mais imprevisíveis como no banheiro, atrás de um armário e outros. Assim que detectarmos um deles, precisaremos examiná-lo para averiguar se ele está de acordo com a representação da figura geométrica formada a partir dos cálculos feitos através das cadeias de nucleotídeos de todos os viajantes.
Zohar percebeu o quanto eles ficaram interessados em saber mais sobre isso.
— Um Buraco de Minhoca é capaz de conectar locais distantes do universo através de um atalho, permitindo que o viajante viaje mais rápido do que a luz.
A geneticista se curvou e tirou de sua íris o minicomputador quântico. Com ele no espalmar de sua mão, ela tirou dele pequenos pontos como cabeça de alfinetes e estendeu a mão. Usando um retroprojetor antigo que estava sobre o balcão do laboratório, ela equalizou as células desse minicomputador antes de ajeitar a célula no retroprojetor. De repente, abriram-se na tela branca presa na parede, os cálculos que ela queria mostrar.

— Analisaremos o potencial eletrostático e o vetor potencial magnético do Buraco de Minhoca. – Zohar anotou em uma lousa.

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— Uma das tecnologias utilizadas no Centro de comando espacial-mundial do século XXIII é a minúsculas nanofibra.
Zohar retirou de dentro de sua narina um pequeno grão do tamanho de um arroz alongado, da cor de sua pele e abriu a pequena cápsula, mostrando-a aos seus colegas.
— Dentro dessa minúscula cápsula existe um arsenal eletrônico capaz de substituir centenas de metros de tubulação eletrônica, telefônica, rastreadores de pensamentos e toda a parafernália de computadores utilizados no ano de 2162. São como fios de cabelos sintéticos que utilizamos para substituir os sentidos humanos, os cabos de eletricidade, os fios de telefone e outros. Nós utilizamos os nanotubos como fios invisíveis ligando-nos a um minúsculo computador quântico instalado em nossa íris.
— Mas todo mundo usa isso?
— Sim. Faz parte do nosso dia a dia. Tão essencial como sair com documentos. Aliás, esses pontinhos substituem o dinheiro, os documentos, e até mesmo um telefone móvel. Se alguém ficar doente, um computador central médico já avisa que você passará por alguma alteração fisiológica e imediatamente você recebe uma notificação para comparecer ao serviço médico.
Houve um silêncio, a perplexidade estampada na cara de todos.
Zohar apanhou a mala de transição que veio até ela através de um flash de névoa esbranquiçada, surgindo aparentemente do nada. Houve um eco na sala pelo tom de surpresa dos presentes. De dentro da maleta ela retirou a Interface gelatinosa, estendeu-a sobre uma mesa até que ele adquirisse um metro e setenta de extensão.
— Essa é uma das câmaras que os viajantes utilizarão no momento da transferência temporal. Ela ficará acoplada dentro do dispositivo provisório de transporte temporal.
— O que vem a ser isso? – Otmar perguntou.
— Em 2162, nós a chamamos de Interface. As imagens serão projetadas nessa tela horizontal e, em seguida, serão captadas por uma nuvem de fumaça que se formará na vertical. – Zohar postou a sua mão sobre a tela e de repente, surgiu uma muralha de neblina na vertical mostrando a projeção de sua mão.
— Este é uma interface sensível ao toque. Ou seja, essa tela absorve o que tocar nele. Eu deixei aqui registrado não apenas uma cópia fidedigna da minha mão, mas a minha própria mão.
Ela percebeu o olhar intrigado dos presentes.
— Na verdade, a minha mão estará em dois lugares ao mesmo tempo. Como se ela se subdividisse em dois corpos de consistências diferentes. Entretanto, essa mão que está na nuvem poderá ter uma senha ou chave de cripto para que ninguém a use de forma desonesta. E quem tiver a chave de cripto dela poderá manipular a imagem da minha mão registrada na nuvem vertical e movê-la para ambientes diferentes, sempre dentro do espaço individual do meu domínio.
Os cientistas se entreolharam, emudecidos.
— Eu sei o quanto é difícil para que vocês entendam isso. Vocês precisarão se acostumar com esse tipo de tecnologia. Pois serão esses os aparatos que vocês vão utilizar para preparar o meu corpo, o corpo de Hitler e da senhora Eva para o transporte.
— A tela de nuvem vertical coletiva dá acesso à linha do tempo? – Perguntou Hermann.
— Exatamente. Há um cálculo para posicioná-la na abertura de um Buraco de Minhoca, que a todo minuto se abre em lugares estratégicos. O primeiro passo é saber onde os Buracos de Minhoca estão se abrindo dentro do bunker, pois eles se abrem no mesmo lugar durante vários dias. O segundo passo é esticar essas telas com esse ícone aqui, – Ela mostrou o botão, – encaixado no local onde se detectou o vórtice do Buraco de Minhoca. Prestem atenção agora! Eu vou abrir a minha tela no espaço coletivo.
Zohar tocou um dos botões projetados na base da tela e, tão logo, abriu-se um leque de fumaças multicores. Todos se afastaram, rapidamente, assustados pelo barulho do tufo de fumaça que se formou.
— Quando vocês forem projetar os três viajantes para o futuro, é esse o caminho a tomar. Vocês terão que abrir a tela do espaço coletivo para nos inserir nela.
Gourloise coçou a cabeça.
— Ai, ai, ai! Será que vamos aprender a mexer com isso?
— Vocês terão de aprender! Não há outro jeito.
Sob o olhar curioso de todos, Zohar se dirigiu ao balcão do grande laboratório e retirou de sua maleta um recipiente bem lacrado de vidro transparente. Ela cheirou o esfregaço e seus lábios se apertaram em um meio sorriso antes de mostrar a placa de vidro para eles.
— Colegas, vejam o esfregaço de células do sangue de Hitler! Trata-se do mesmo material usado para clonar jovens garotos 
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Ela o olhou de maneira desnorteada. E viu quando Himmler a olhou de baixo a cima, no maior desprezo, enquanto circulava em torno dela. “Esse homem vai ser deposto daqui alguns minutos. Se eu não lhe disser tudo que ele merece ouvir, nunca mais ninguém terá a oportunidade de fazer isso”, pensou ela.
— Às vezes, são as pessoas que menos esperamos que fazem coisas que ninguém imagina! – Disse ela tomada por um surto de coragem.
Himmler ficou com uma cara alarmada.
— O que você fez sua vadia?
Ela engoliu seco, como se tentasse ganhar coragem para falar.
— Eu ajudei a decodificar a máquina Enigma. – Sua voz saiu fraca.
Ele agigantou os olhos para ela.
— Repita! – A voz dele retiniu com ódio.
— Eu trouxe do futuro o projeto para decifrar todos os códigos nazistas.
Uma bofetada fez Zohar cambalear. Ela tocou o rosto amortecido pela agressão, testou os seus maxilares, certa de que ele havia quebrado dente por dente de sua boca. Com dificuldade, ela tentou se levantar e antes mesmo que pudesse se pôr em pé, ele desferiu um chute que lhe acertou o braço.
— Eu duvido! A Enigma é indecifrável! Ouviu bem? Ela possui 159 milhões de configurações. – Falou ele com acesso de cólera, tremendo ao encará-la de perto.
— A decodificação beneficiou Winston Churchill. Todavia, Stalin também se beneficiou do vazamento das informações nazistas.
— MENTIRA! – Ele gritou furioso.
Himmler tremia de ódio ao olhar pra ela.
— As escutas interceptaram milhares de mensagens nazistas por dia. Elas tinham todas as coordenadas dos seus submarinos, navios e aviões de ataque. Eles ouviam cada maldita conversa entre os lobos nazistas! Foram ouvidas todas as mensagens de alto escalão nazista! – Disse ela, tomada pelo desejo de vingar a morte de todos os judeus.
Foi quando Himmler sacou a arma e a direcionou em sua cabeça. Foi questão de segundos, ouviu-se um grito ecoar pela sala e congelar o tempo.
— ELA É SUA FILHA, RER!
Nesse ínterim, o geneticista Hans apareceu na porta como de solavanco.

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— Então, há previsão de um cataclismo para destruir a Terra no futuro?
— Sim, está previsto para acontecer em 2162. – Disse Zohar.
Schumman empalideceu.
— Você sabia que em 2162 o Reich possui um laboratório com milhões de embriões e fetos com gene Haploide Modal Cohen? – Perguntou-lhe Zohar.
— Não me diga! – Schumman coçou a barba.
— A coleção de fetos e embriões começou em Auschwitz, no começo da Segunda Guerra. Em 2162 esse laboratório conta com milhares de embriões prontos para serem fecundados. – Disse Zohar.
— Milhares de embriões prontos para se tornarem crianças a partir de uma decisão de um governante. – Disse Schumman, pensativo.
— E que serão doutrinados para servirem de escravos ou ter a serventia que melhor lhe aprouver.
Eles trocaram olhares apreensivos.
— Mia pode ter se apoderado do laboratório de Genética do Reich.
— Diante disso, parece mesmo que os enkianos vão provocar um cataclismo. – Disse ele.
— Eu tenho minhas dúvidas se o Reich também não iria provocar um cataclismo com a ida de Hitler para o futuro. Eles planejaram tudo desde o genocídio judeu, com o objetivo de trabalhar como um laboratório genético humano altamente especializado em seres de alta qualidade, que por ironia, são os judeus.
— Quer dizer que o próprio Reich planejou acabar com a humanidade através de um desvio do eixo terrestre para substituí-la através de uma nova humanidade portadora de genes judeus? – Perguntou-lhe Schumman.
— Sim. Acho que o Reich já deixou programada a ocorrência da inversão dos polos da Terra há centenas de anos.
— Sim. Hitler temia que, um dia, o Reich seria deposto e não mais governasse por mil anos como ele prometeu. A construção do Die Glocke teve o objetivo de, no futuro, o próprio Hitler governar a geração de criaturas portadoras do gene Haploide Modal Cohen. Por isso, ele contratou Nikola Tesla para trancar a frequência eletromagnética da Terra e a ionosfera em sua molécula de DNA. Nessa ocasião, ele mesmo pode ter programado a inversão dos polos terrestres.

— Maldito! – Schumman estava boquiaberto.

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